Categories: Relacionamento

Stefani Inouye

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Relacionamentos leves e livres de cobrança

Construir relacionamentos leves é entender que o outro é livre. 

O outro é livre para não gostar de você. É livre para não querer passar tempo ao seu lado. É livre para não corresponder os sentimentos que você tem por ele.  

O outro é livre e, por ser livre, tem poder de escolha. 

Poder este que todas as pessoas têm, inclusive você. 

Sim, eu já comecei esse texto trazendo uma verdade dura de se engolir. 

Mas, neste texto, eu quero te convidar a olhar para o desconforto que surgiu ao ler essa verdade, e entender que relacionamentos leves são relacionamentos livres. 

Livres de cobranças, de expectativas irreais e de cálculos de reciprocidade.

Ninguém é obrigado a nada

Antes de qualquer coisa, eu quero voltar na afirmação que mais deve te ter te incomodado nesse texto. 

O outro é livre para não gostar de você. 

Eu quero, nesse momento, você olhe para o desconforto que apareceu ao ler essa frase e se pergunte com honestidade:

  • Por que isso me incomodou tanto?

É muito difícil lidar com a liberdade do outro quando a sua própria liberdade não está em dia.

Quando você não se sente livre para exercer as suas próprias escolhas, ver o outro escolhendo parece um absurdo.

“Como assim aquela pessoa pode escolher não me dar atenção, quando eu me sinto obrigada a dar atenção pra ela o tempo todo?”

Se a liberdade do outro te incomoda tanto, talvez, o verdadeiro motivo seja porque você sinta que você não tem essa mesma liberdade. Mas você tem. 

Ninguém é obrigado a nada, inclusive você. 

Entender isso é o primeiro passo para construir relacionamentos mais leves. Afinal, será que construir uma relação baseada na obrigação de algo é a melhor escolha? 

Com certeza não. 

Relacionamentos leves são construídos no afeto, no prazer da companhia e no carinho que cada um cultiva dentro de si pela outra pessoa. 

Relacionamentos leves não têm cobrança 

Você já viu alguma relação recheada de cobrança ser leve? 

A obrigação só cultiva cobrança, e cobrança pesa. 

Você já parou para pensar o que significa cobrar alguém? A cobrança nos relacionamentos pode assumir formatos bem diferentes. 

Existem aquelas cobranças muito claras, que, geralmente, vêm na forma de “ah, naquele dia eu fiz determinada coisa por você, então por que agora você não pode fazer isso por mim?”

Mas também existe aquela cobrança velada, que vem num tom mais floreado de “eu faço isso porque gosto de você, e eu só queria que você fizesse isso de volta”. 

Independente do formato, a cobrança existe. E ela só existe porque a pessoa começa a colocar no papel tudo o que ela dá e tudo o que ela recebe naquela relação.

Mas será que a chave para ter relacionamentos leves está nessa matemática? 

Será mesmo que reduzir suas relações a uma contabilidade afetiva é o melhor caminho para construir laços duradouros?

Quando você encara a reciprocidade como uma fórmula matemática, a sua vaidade entra na frente.  Você não admite gostar mais do outro do que ele gosta de você. 

Mas será que nessa hora você não está perdendo várias oportunidades e convivências que seriam importantes e amistosas para a sua vida?

Será que não é o seu ego que fica machucado quando não se percebe num lugar de extrema importância na vida do outro? E será que vale a pena a gente tomar decisões baseadas nas vaidades e nos medos do seu ego?

Quando você cobra, quando você impõe uma expectativa de reciprocidade sobre o outro, você pressupõe que o outro precisa abrir mão da liberdade dele para te agradar. 

E essa expectativa é um tanto quanto infantil. 

Relacionamentos leves são relações compostas por pessoas maduras o suficiente para entender e respeitar a liberdade do outro. 

E você só consegue respeitar a liberdade do outro quando está em dia com a sua própria liberdade.

Liberdade é poder escolher. Maturidade é escolher sabendo que toda escolha tem um preço a ser pago. 

Relacionamentos leves não têm dependência 

Se o outro é livre para gostar de você, te admirar e te dar afeto, isso significa que ele também é livre para te enganar, te atropelar e te desprezar. 

E você também é livre para fazer tudo isso. Você é livre, inclusive, para anular a sua própria liberdade. 

E, sabe quando é que você faz isso? Quando as suas sombras te fazem ser dependente do outro.

Quando você percebe que, mesmo que o outro te atropele, te anule, te despreza, você continua escolhendo permanecer naquele relacionamento. 

Se isso acontece, não se engane. Você não é prisioneira do outro e nem do relacionamento, mas sim prisioneira dos seus próprios medos. 

Você é prisioneira da sua insegurança, da sua imaturidade emocional, da sua carência. 

Se você sente que o outro atropela seus valores, te desrespeita, não cumpre os combinados que fez contigo e você, mesmo assim, sustenta esse relacionamento, é preciso se questionar: 

  • Qual parte dentro de mim, me impede de romper com essa relação?

O convite, nesse caso, é curar a sombra que te faz dependente desse relacionamento.

É olhar para dentro e entender qual parte de você te faz acreditar que você não tem escolha. 

Por que você sempre tem escolha. 

Relacionamentos leves são relações construídas na liberdade, e não na dependência. 

Se relacionar é também sobre reconhecer seu próprio valor

Agora que falamos sobre dependência, quero trazer um ponto importante sobre construir relações. 

A verdade é que a maior parte das distorções que as pessoas criam nas relações e na vida são fruto da falta de autoestima. 

Isso porque elas não sabem reconhecer o próprio valor e, muitas vezes, baseiam a estima por si mesmas no valor que o outro dá a elas. 

Quando se tem a verdadeira autoestima, você reconhece o valor que você traz para cada relação. 

Você consegue apreciar o prazer que a sua companhia pode trazer para a outra pessoa, assim como a companhia dela traz para você. 

Você não duvida do seu valor quando o outro faz escolhas que não incluem você. Por que você sabe que o seu valor independe do outro. 

Quando você reconhece o seu próprio valor, você é capaz de construir relações mais maduras e saudáveis, com pessoas que te respeitam por quem você é.

E, como consequência, você tem relacionamentos mais leves também.. 

O outro é livre e você também

Muitas vezes, as pessoas que você gosta e ama vão fazer contigo coisas que você não faria com elas. E é nessa hora que você precisa respirar fundo e lembrar que o outro é livre.

E que só te cabe praticar a sua liberdade de investigar, se o outro sendo livre e agindo como prefere, continua sendo válido para a sua própria esfera.

Talvez, ao se fazer os questionamentos que eu propus neste texto, você perceba que não queira manter algumas relações na sua vida, e decida encerrá-las. 

E qual é o preço de romper um relacionamento? Talvez seja o encontro com um pouquinho de angústia, com a sensação de rejeição, com a solidão.

Mas qual preço você prefere pagar? O de ficar num relacionamento que te atropela ou de encerrar a relação?

Seja lá qual liberdade você escolher praticar, ela terá um preço. 

Toda escolha tem um preço, mas qual é o valor que cabe no seu bolso, só você vai saber dizer.