O caminho do meio é mais trabalhoso

08 de abr, 2021

Equilíbrio: fácil quando falado, mas difícil de ser praticado.

Fácil compreender com a mente que as distorções moram nos extremos, mas é muito difícil, na prática, não ser atraído pelos polos do radicalismo. Ainda que você não faça parte do clube dos radicais, é provável que simpatize mais com um dos lados dos infinitos cabos de guerra que nos cercam. Quase todo mundo fala sobre equilíbrio e caminho do meio, mas, na prática, a polarização prevalece. Por quê?

A resposta não é óbvia, mas é simples: o caminho do meio é mais trabalhoso. Dá mais trabalho equilibrar do que obedecer. O equilíbrio precisa de constante vigilância. A todo tempo escorregamos nos excessos, e só quem se propõe à permanente autorrevisão consegue redesenhar os próprios hábitos de forma contínua, evitando o comodismo de se conformar com verdades absolutas e imutáveis.

Aquilo que não é questionado torna-se automático. E tudo que é feito de forma mecânica perde o propósito. A oração praticada de forma meramente protocolar perde a essência. A gratidão dita de forma automática é desprovida de real contentamento. E até hábitos benéficos, quando praticados sem consciência, deixam de nos oferecer o precioso estado de presença.

Os extremos não abrem espaço para o questionamento e, por isso, excluem a auto revisão. Os radicais não abrem espaço para serem questionados e, de tão convictos, tornam-se cegos. Quem não se questiona não abre espaço interno para o movimento de transformação e se torna refém de suas velhas opiniões formadas sobre o mundo.

Ao contrário, os que se desobrigam da convicção engessada se permitem a fluidez de ser a tal “metamorfose ambulante”. Não se cobram convicção com as ideias de ontem, mas apenas com as pulsões que carregam hoje. Estão, portanto, sempre atualizados com as próprias verdades.

Atualizações sempre demandam estudo. E, nesse caso, não é diferente. Para estarmos atualizados com a nossa essência, precisamos cultivar a disposição ao autoestudo. E, isso, invariavelmente, é mais trabalhoso do que decorar um protocolo e se propor a obedecer.

Dogmas oferecem verdades prontas. O caminho do meio exige que você encontre a sua. Por isso, é menos praticado. Requer um mergulho constante dentro do próprio universo interior para desvendar as contradições entre o que clama sua essência e o que, na prática, motiva suas escolhas.

Encontrar a espiritualidade em si é mais trabalhoso do que seguir protocolos de alguma religião. Escolher um dos lados da política é mais simples do que analisar individualmente cada representante. Rotular a própria alimentação requer menos empenho do que praticar a escuta constante do próprio corpo.

O problema, no fundo, é a pressa. O modo automático traz consigo o benefício da velocidade e nos isenta da responsabilidade de parar, respirar, e escolher a próxima marcha. E, quando não há tempo para o respiro, negligenciamos o autoestudo e nos distanciamos do caminho do meio.

Fora dos extremos as verdades não são absolutas, tampouco universais. Na tênue linha do equilíbrio moram as condutas mutáveis, personalizadas e carregadas de movimento. E, delas, nasce a única coerência que deveríamos perseguir: aquela que nos alinha com o que de fato pulsa dentro de nós.