Não romantize a empatia

22 de abr, 2021

“Muitos discursos de empatia se sustentam mais na vaidade de quem os profana do que num cuidado genuíno com o próximo.”

Afinal, o que é a empatia? Andei fazendo uma pesquisa e percebi que não existe uma resposta universal.

Há quem diga que empatia é sentir a dor do outro. Há quem diga que empatia pressupõe se colocar no lugar do outro. Mas será que, na prática, isso é possível?

Minha aposta é que não. Mas isso não impossibilita a prática da empatia, porque não é necessário sentir o que o outro sente para respeitar a dor do outro.

Empatia tem muito mais a ver com reservar a alguém o direito de pensar como pensa e de sentir como sente do que comungar das mesmas ideias e emoções. Empatia começa na vontade de entender o outro e se manifesta como sensação genuína de se importar.

Empatia não é sentir igual, não é sofrer junto, não é concordar. Muitas vezes, justamente por se importar, uma pessoa precisa confrontar. Confronto, contudo, não significa conflito. Não precisamos brigar porque somos, pensamos e sentimos diferente. Mas não precisamos ter medo de discordar. Muitas vezes confrontar é uma demonstração de que você se importa. E quem não se importa não sente empatia.

Romantizar a empatia é acreditar que, para sermos empáticos, precisamos chorar junto e dar colo, quando, inúmeras vezes, o confronto bem-intencionado é justamente o agente de cura. Somos tão vaidosos que preferimos acolher o erro e mentir para sermos bem vistos pelo outro. Tememos a forma como o confronto vai ser interpretado e mentimos para sermos queridos.

Muitos discursos de empatia se sustentam mais na vaidade de quem os profana do que num cuidado genuíno com o próximo.

Trazer ao outro clareza dos pontos de melhoria em suas condutas é diferente de ser agressivo ou ofensivo, e a diferença começa na natureza da motivação. Atacar é diferente de ajudar a enxergar.

Todos nós temos pontos cegos, e contar com pessoas que nos ajudam a percebê-los pode ser mais vantajoso do que viver cercado de bajuladores. Quem realmente se importa conosco vai ser propor ao desconforto de nos trazer a verdade, em vez de trazer apenas o que gostaríamos de escutar. Isso, sim, é ser verdadeiramente empático.

Kim Scott batizou esse modo genuíno de empatia como “empatia assertiva”, nome do livro em que ela defende uma forma menos romantizada de se importar com as pessoas.

Contudo, para que essa dinâmica mais transparente se estabeleça, é necessário que as pessoas parem de maquiar suas intenções de receber colo por trás do discurso de que esperam empatia.

A chave para que saibamos receber a empatia assertiva de forma aberta e não defensiva é saber que nossas falhas não nos roubam o valor. No âmbito intelectual e moral, nosso mais profundo valor vem justamente da nossa capacidade de corrigir nossos erros, nossas interpretações e nossas atuações. E, para isso, o primeiro passo é começar a perceber nossos pontos cegos.

Mais vale uma crítica verdadeira que nos permite autorrevisão do que um elogio mentiroso que nos mantém presos na ilusão.