Autossabotagem traz alívio

05 de abr, 2021

Crescer é maravilhoso, mas precisamos ter clareza se realmente o queremos. Há quem prefira se distrair.

O mais perigoso tipo de autossabotagem é aquele embasado em argumentos sólidos. Uma boa teoria consegue convencer aos outros e a nós mesmos de que a nossa falta de movimento é legítima.

Somos craques em nos contar histórias que justifiquem a nossa inércia e a manutenção de alguns vícios de conduta que são tóxicos. E, quanto mais bem elaboradas essas histórias são, mais elas nos prendem.

Muito da nossa dificuldade de mudar nossos comportamentos nocivos vem dessas histórias que insistimos em nos contar. As histórias dão a esses comportamentos razões para existir, e, dessa forma, eles fazem morada longa dentro de nós.

Justificamos nossas condutas de hoje com o passado, justificamos nossas frustrações com falta de sorte, justificamos nossos relacionamentos distorcidos com argumentos convincentes que transferem toda responsabilidade da distorção para os outros.

Histórias convencem. Não só as que escutamos, mas também as que contamos.

Se hoje até os maiores especialistas em marketing atestam o poder persuasivo do “storytelling”, quem vai negar o potencial das histórias que contamos a nós mesmos?

Mas por que será que nos contamos histórias que nos impedem de crescer?

Porque somos humanos. Temos um ego que deseja ser superior e estar sempre certo. E carregamos do lado de dentro um resquício imaturo e infantil que não quer se responsabilizar para não assumir o trabalho de movimentar e mudar.

Existe um alívio imediato patrocinado pela autossabotagem: a sensação de não precisar fazer nenhum esforço para atuar diferente.

Quanto mais persuasivos somos, mas atentos precisamos ficar. Pois vamos encontrar argumentos muito elaborados e lógicos para justificar nossas condutas. Quem argumenta bem encontra sempre uma plateia que afirme que aquelas teorias fazem sentido, e isso acaba validando ainda mais a história. É perigoso.

Histórias repetidas viram verdades, e verdades geram certezas. E, assim, perdemos o benefício da dúvida, de questionar nossas próprias condutas. Isso nos rouba o hábito da auto-observação honesta. Começamos a simplesmente reafirmar tudo que fazemos e, assim, agravamos ainda mais nossas distorções.

É necessário colocar na balança e escolher. O que desejamos mais: o alívio imediato de permanecer na famosa zona de conforto ou a satisfação de longo prazo ao se perceber crescendo? É escolha.

Crescer é maravilhoso, mas precisamos ter clareza se realmente o queremos. Há quem prefira se distrair. Há quem escolha a bênção concedida pela ignorância.

Mas sabe o problema? Eu criei uma armadilha. E, se você chegou ao final deste texto, vai inevitavelmente começar a perceber quais são as histórias que você conta a você mesmo e aos outros para garantir o prazer imediato trazido pela autossabotagem.

Talvez você até consiga continuar sustentando essas histórias para quem te escuta, mas a partir de hoje vai precisar conviver com uma vozinha interna que te lembra que seus argumentos são só estratégias para justificar sua preguiça de mudar.

Desculpe, caro leitor. Posso até parecer má por ter pregado essa peça em você. Mas sempre disse que meu papel era fazer acender luzes, e não te convencer a se manter trancafiado na sua escuridão.